A que sabe o seu Natal? (e tudo o resto que vive ao longo do ano)

Está demonstrado que se alguém tem a capacidade de apreciar e saborear experiências positivas então viverá uma vida mais rica e mais agradável, retirando felicidade de acontecimentos positivos.



A quadra Natalícia não é vivida por todos da mesma forma, e para muitos até é uma altura que evoca memórias dolorosas e suscita sentimentos de tristeza e solidão, ainda que observe que para bastantes pessoas esta é uma época de maior proximidade e convívio com familiares e amigos, condimentada com algumas tradições gastronómicas, religiosas e culturais. Mal as cidades e vilas se enchem de luzes e as decorações natalícias inundam o comércio, o cheiro a açúcar e canela e o sabor das rabanadas acabadas de fazer pela minha mãe assaltam-me com um surpreendente realismo, induzindo-me um doce sorriso e sensações positivas. Confesso que estas recordações não são apenas reminiscências da minha infância pois, felizmente, tenho tido a possibilidade de as viver todos os anos e de assim as alimentar, ampliar e transformar, permitindo-me frequentemente saboreá-las e usufruir do impacto emocional positivo. Reconheço ser “abençoada” a este nível.

Mais recentemente, em consulta com a Beatriz [nome fictício], uma gestora de 42 anos que procurou a minha ajuda por estar a vivenciar níveis elevados de ansiedade e dificuldade em lidar com acontecimentos de vida negativos, pudemos trabalhar, entre outras dimensões, a aplicação progressiva de algumas estratégias para aumentar o seu bem-estar, uma das quais o saborear momento a momento as experiências positivas que fosse tendo diariamente. Psicólogos (Bryant, 2003; Langston, 1994) demonstraram que se alguém tem a capacidade de apreciar e saborear experiências positivas então viverá uma vida mais rica e mais agradável, constituindo então o saborear um importante mecanismo regulatório através do qual as pessoas se envolvem para experienciar, apreciar e aprimorar as experiências positivas nas suas vidas (Bryant and Veroff, 2007), retirando felicidade de acontecimentos positivos. Durante as consultas, a Beatriz foi tomando consciência e aprendendo que para aumentar e prolongar as experiências positivas do seu dia-a-dia, poderia ir adoptando algumas técnicas mais instrumentais como compartilhar a experiência com outras pessoas (procurando pessoas com quem apreciar um acontecimento ou dizer aos outros quanto é que ela valoriza o momento), expressar-se e agindo mais (rindo ou mostrando afecto), sendo grata, congratulando-se e assim permitindo sentir-se orgulhosa, construindo memórias, ou seja, propositadamente tentando lembrar-se do acontecimento positivo e concentrando-se nas sensações físicas de uma experiência prazerosa. Passadas cerca de quatro semanas de a Beatriz ir praticando estas estratégias, foi sendo paulatinamente visível o aumento dos seus níveis de bem-estar, prolongando e intensificando as emoções positivas relacionadas com o que ia vivenciando. Na verdade, muitos de nós e também antes a Beatriz, recorrem automaticamente a estratégias como procurar falhas nos acontecimentos positivos, distrairmo-nos quando estes sucedem, suprimir e relativizar determinadas emoções ou “viajar” mentalmente no tempo ampliando emoções negativas. Quanto mais o fizermos menos capazes seremos de “capitalizar”, ou seja, de interpretar beneficamente os acontecimentos positivos que formos tendo nas nossas vidas e de assim atingirmos níveis mais elevados de bem-estar.

Voltando à quadra em que nos encontramos, e sabendo que saborear ajuda as pessoas a aproveitar ao máximo, alcançando mais felicidade, estamos dispostos a saborear o Natal e tudo o que ele nos trouxer no “sapatinho” e a prolongar essa atitude para o que demais vivemos ao longo do ano?


Teresa Espassandim

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira


[artigo publicado originalmente no Observador]

© 2018 por Teresa Espassandim

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