• Teresa Espassandim

“Mais um esforço…” ou como não desenvolver a resiliência

Cresci nos anos 80 e, alguns êxitos publicitários da altura conseguiram perdurar em mim desde a infância fazendo com que hoje, automaticamente, estabeleça associações umas vezes poderosas outras tantas bizarras entre certas frases e campanhas de então. Uma dessas ligações é com a marca de chocolate em pó “Suchard Express” sempre que ouço dizer “mais um esforço”.


Esta frase poderia também descrever o clima em que muitos colaboradores vivem actualmente nos seus locais de trabalho, sendo que as situações de stresse, de depressão, de ansiedade ou de burnout são cada vez mais referidas por um significativo número de trabalhadores face à desmedida pressão para responder às exigências do paradigma de trabalho contemporâneo e à situação de pandemia que, em muitos casos, tudo parece justificar. Adoecer, devido ao trabalho, parece ser uma trend que se tornou viral e elucidativa do quão desumanas são certas culturas organizacionais, práticas de gestão e valores e de quão pouco seguros e saudáveis psicologicamente são certos ambientes de trabalho. Contribuem para estes fenómenos um certo pensamento mágico em torno da ideia que aguentar será idêntico a ser resiliente e que esta característica será apenas devida a factores intrínsecos do trabalhador e da sua personalidade ao invés da interacção destes com o contexto em que se exerce a actividade profissional. Resiliência é a capacidade (e por isso pode ser promovida) que permite enfrentar adversidades que podem ser consideradas potencialmente de risco psicossocial de forma positiva, que envolve activamente mecanismos de protecção e que faz parte de um processo evolutivo. A investigação na área demonstra inequivocamente que resiliência e invulnerabilidade não são conceitos equivalentes, pelo que a capacidade de recuperar de acontecimentos negativos não constitui imunidade ao sofrimento psicológico.


Esta necessidade de resiliência em contexto laboral continua a evoluir em importância dadas as crescentes incertezas associadas à natureza mutável do trabalho e da força de trabalho em todos os contextos de emprego. Mudanças progressivas tais como a erosão do tradicional contrato psicológico para o trabalho mais precário e uma menor segurança no emprego, aumento da pressão do empregador para que haja uma constante dedicação ao trabalho e para o colocar à frente da vida pessoal, os constrangimentos à conciliação da vida profissional e familiar em que cada vez mais se observa a existência de famílias monoparentais e de uma única pessoa e em que se prestam cuidados a pais e filhos em simultâneo, o atenuar dos limites e das fronteiras do trabalho, tornando mais difícil o desligar e desconectar devido ao rápido avanço das tecnologias e da comunicação digital, catalisam um desequilíbrio entre exigências e recursos mas que pode (e deve) ser amortecido no local de trabalho através do apoio social, da clareza de papel, de feedback, da partilha de informação e de autonomia.

O pedido frequente de “mais um esforço” é um gatilho para a deterioração da saúde (física e mental) e da motivação dos colaboradores por via do esgotar dos seus recursos mentais e físicos, conduzindo à redução da sua energia e a estados de exaustão que, paradoxalmente, mobilizam a activação do esforço subjectivo com custos psicológicos. Longe estaremos, assim, de promover a resiliência e de assegurar a sustentabilidade tão necessária às organizações e ao país.


Para mais informação: https://maisprodutividade.org/


Artigo originalmente publicado na Human Resources Portugal


Teresa Espassandim

Psicóloga Especialista

Psicologia Clínica e da Saúde | Psicologia da Educação | Psicoterapia | Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira

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