Grandes gestos românticos ou sinais de narcisismo? O "love bombing" engana e também destrói


Num artigo da jornalista Ana Cristina Marques do jornal Observador, contribuo com o olhar da psicologia clínica para as relações com pessoas com características narcísicas da personalidade e o sofrimento psicológico associado.


"Raramente sabemos o que está a acontecer ou como o conseguimos combater. A manipulação costuma ser implícita e não explícita."


"Há défices ao nível da empatia, mas eles não perdem a empatia cognitiva — podem compreender o efeito do seu comportamento nos outros, mas não o sentem."


Teresa Espassandim, psicóloga clínica, assegura que estas pessoas têm dificuldades na intimidade: estando apaixonadas por si mesmas, sobra pouco espaço para o outro, que “só existe como mundo relacional se acrescentar algo”. Estas relações instrumentais podem servir para aumentar ou confirmar o estatuto, o que implica, por exemplo, a procura de um parceiro esteticamente parecido. Do “love bombing” fazem parte comportamentos de controlo, mas também a manipulação, “vulgarmente conhecida como sedução”. O aparente pedestal em que o outro é colocado, no início de uma relação, é uma forma de exercitar influência para limitá-lo e condicioná-lo. E isso, assegura a psicóloga, passa por afetar a autoestima. “Se consigo reduzir o outro a nada, a considerar-se fraco ou insuficiente, não preciso de exercer grande controlo”, diz. “Raramente sabemos o que está a acontecer ou como o conseguimos combater. A manipulação costuma ser implícita e não explícita.” Espassandim lembra ainda que a perturbação de personalidade — que aponta para uma exacerbação de “características rígidas e disfuncionais que não se alteram com a passagem no tempo” — não é frequente e representará à volta de 1% da população global.
O que está na base do narcisismo é o amor excessivo pela imagem, não apenas física, mas também a ideia do sucesso. “As pessoas com perturbação ficam de tal forma fixadas nesse ideal que não suportam lidar com as imperfeições”, acrescenta ainda a psicóloga clínica Teresa Espassandim, sendo que algumas delas “não olham a meios para obter os seus fins”. Há um sentimento de grande importância e fantasias de sucesso desmedido latentes, mas também ocorre a construção de ambientes tóxicos para preservar a ideia de superioridade.
Para quem se possa encontrar na posição da vítima, a psicóloga aconselha a investir no respetivo autoconhecimento, de maneira a manter a autoestima e a distinguir melhor “aquilo que se é do que aquilo que dizem que somos”. Num sentido mais prático, é importante não abdicar de atividades que dão prazer, preservar momentos de auto-cuidado e, acima de tudo, não cortar contacto com amigos e familiares. Isto é, “não por todos os ovos na mesma cesta”.

Teresa Espassandim

Psicóloga Especialista e Consultora

https://www.teresaespassandim.pt/

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