Chief Wellbeing Officer: das iniciativas à estratégia organizacional

A saúde mental tornou-se uma buzzword durante a pandemia COVID-19 e, aquela que tantas vezes foi referida como “o parente pobre da saúde” (não que o tenha deixado de ser em termos absolutos ou relativos), ganhou visibilidade e a necessidade de a promover, relevância.

Algumas empresas, conscientes dos impactos da situação pandémica, não pouparam esforços para disponibilizar às pessoas trabalhadoras serviços de apoio psicológico, como consultas ou linhas telefónicas, webinars e eventos dedicados e conteúdos de literacia em saúde psicológica, mais divulgados enquanto benefícios e menos implementados enquanto parte da estratégia organizacional. Uns tempos depois, a surpresa na baixa procura dos mesmos por parte de colaboradores/as, levou ao questionamento sobre a sua existência ou fundamentou precipitadamente até o seu cancelamento. No entanto, parecem ser poucas as organizações que, de forma consistente, sistemática e apoiada na ciência, desenvolveram uma estratégia de promoção da saúde e do bem-estar das pessoas integrada na gestão estratégica do seu negócio, apesar de 3 em cada 5 trabalhadores/as (60%) experienciarem problemas de saúde psicológica (Mental Health at Work, 2017) e o Relatório do projecto “Saúde Mental em Tempos de Pandemia” do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (2020) referir que 34% da população geral e 45% dos profissionais de saúde apresentam sinais de sofrimento psicológico.

De facto, uma empresa ter actividades de bem-estar é muito distinto de ser uma empresa de bem-estar! O que se observa, generalizadamente, é a presença de diferentes colaboradores/as ou departamentos que acumulam responsabilidades no domínio da saúde e bem-estar laboral, tais como Técnicos Superiores de Segurança e Higiene do Trabalho, Técnicos de Recursos Humanos, Técnicos de Formação, Contabilistas, Juristas, Directores-gerais e CEO sem formação específica e competências certificadas relevantes para este domínio.

Em algumas realidades empresariais, o investimento orientado para a excelência organizacional e para a sustentabilidade (sem green/socialwashing) apostou na criação de Chief Wellbeing Officers que desenvolvem metodologias e informam para políticas centradas nas pessoas e na eficiência e contribuem para a construção de culturas organizacionais de bem-estar. Nesses locais de trabalho são conhecidos os drives da organização, utilizadas métricas e indicadores que tornam mensurável as dimensões psicossociais do trabalho que afetam a produtividade, são avaliados os resultados dos programas, procurando-se a sua custo-efectividade e assim o retorno do investimento (ROI) em saúde e bem-estar e a totalidade das suas práticas, processos e cultura é capaz de criar ambientes em que as pessoas e o colectivo podem “atingir o seu potencial, alcançar objetivos pessoais e ocupacionais e contribuir para o sucesso estratégico das organizações” (Einion-Waller, 2021).

Ora a expectativa de melhorar o desempenho organizacional através da promoção da saúde e do bem-estar das pessoas através de instrumentos assistencialistas, de carácter pontual, populistas e com objectivos opacos resultará gorada. Mas não sou eu quem o afirma, é a evidência científica.


[Artigo originalmente publicado na Human Resources Portugal]


Teresa Espassandim

Psicóloga Especialista e Consultora

https://www.teresaespassandim.pt/

15 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo